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O avesso da sociedade




O avesso da pele escancara preconceitos. Mostra o avesso da sociedade, aquilo que não gostaríamos de ver, nossa crueldade e mesquinhez. Será essa a razão da censura que vem sofrendo em alguns estados?


O livro é forte e corajoso por tratar de forma direta e transparente o racismo estrutural com endereço. Não fala de maneira genérica sobre o Brasil, mas especificamente do Sul e de Porto Alegre. Não que só haja preconceito ali, mas a história adquire outra dimensão, muito mais potência, quando é localizada com exatidão. Para mim, foi muito didático perceber o caráter estrutural do racismo ao vê-lo descrito em detalhes, na intimidade de um relacionamento amoroso, no convívio social da escola, dos ambientes de trabalho, na relação hierárquica com a polícia.


É elegante e criativo na estrutura narrativa em segunda pessoa. Não lembro de ter lido muitos livros com um narrador em segunda pessoa. Eu já fiz um exercício em que narrava assim e achei muito mais difícil. A estratégia é ainda mais sutil quando se percebe que o narrador está falando com um pai que já está morto.


É sensível, é profundo, é dilascerante acompanhar as dores e marcas deixadas nas personagens pelo preconceito, pela exclusão e ignorância. Em vários momentos do texto, o jovem relata ensinamentos que ouviu do pai para conseguir lidar com o preconceito, para se blindar e sobreviver, mas também para lutar e “preservar o avesso, o que ninguém vê”. Me peguei me questionando o quanto eu serei capaz de preparar meus filhos para se defenderem do racismo num mundo tão cruel, eu, que nunca sofri, nem na pele nem no avesso, uma fração dessa dor. A literatura certamente é uma grande aliada nessa missão de prepará-los para uma existência mais justa.

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